Não estava com pressa de quem está com horário marcado, estava com pressa de quem sente muitas saudades e quer logo chegar em casa, dormir na cama confortável, comer a comidinha que minha tia sempre fez com tanto carinho... Era este tipo de pressa. Mas estava até que bem tranquila, a fila era pequena. Na minha frente apenas um homem que falava muito ao celular enquanto uma menininha pedia desesperadamente por sua atenção.
Grandes olhos azuis esverdeados me olhavam de baixo pra cima. Estavam ainda maiores e mais esverdeados, aumentados pelas lágrimas peduradas e mais aquelas outras que vinham correndo empurrando estas umas. Ela sorriu ao olhar para mim, sorri de volta... um largo e sincero sorriso. Fomos para a mesma plataforma. A menininha se sentou com o seu pai de um lado, fui para outro distante. Comecei a tentar ler meu Hamlet. Comecei a perceber os movimentos desesperados que vinham da garotinha, que parecia querer mostrar com seus bracinhos curtos toda a tristeza e confusão de seus sentimentos, que suas palavras eram ainda insuficientes para expressar. Depois de discutir um pouco e então desistir, o pai da pequena sai para um lado deixando-a sozinha. Ela rende-se em chôro sentido, desesperado. Em meio a soluços, seu olhar perdido pede ajuda.
Levantei-me, peguei minha mala, fui em sua direção, sentei ao seu lado, puxei uma caixa de bis da mochila (como toda chocólatra nível máximo, sempre tenho um chocolate na bolsa) e ofereci a ela. A fofa deve ter se lembrado dos pais dizendo para nunca aceitar nada de estranhos, então com aquele mesmo sorriso largo eu disse "chocolate cura qualquer dor, vai por mim". E então ela também sorriu e pegou o chocolate. Seu nome é Letícia, vem bem de encontro às suas bochechas fofas e rosadas e seus olhos grandes e claros. Comecei a limpar suas lágrimas dizendo
que ali havia um rosto muito doce e lindo para tanta tristeza... ela começou a me contar com desespero que seus pais estavam se separando e seu pai não queria deixá-la com sua mãe em São Paulo, ela estava indo obrigada para o Guarujá. Dez anos apenas... no meio daquele furacão da separação e das coisas que não entendemos que vem junto com ela. Então comecei a lhe contar de quando meus pais se separaram e eu fui morar na Bahia com a minha mãe e seu novo marido. "Não era ruim?" ela me perguntou. "Bom, não é muito legal é verdade. Mas você acaba conhecendo mais gente, mais gente acaba entrando na sua vida e gostando de você, você acaba conhecendo outros lugares também. É divertido agora e mais pra frente vai acrescentar um bocado na sua vida". E ela deu um suspiro longo e aliviado, pegou outro chocolate e continuamos a conversar sobre sua vida, seus amigos, as coisas que gostava de fazer.
Seu pai chegou, achou estranho mas não interrompeu. Ficou olhando de longe, apenas se certificando que a menina estava bem. Mas eu não estava com cara de quem parecia que iria machucá-la. Ainda comendo bis com ela, desta vez estava contando de quando cheguei no meu primeiro dia de escola, olhei para uma menina de cabelo todo armado como o da Hermione, comecei a falar com ela empolgada que meu nome era Amanda, estava ali no meu primeiro dia e era também minha primeira escola na Bahia, porque eu estudava em São Paulo... e dali em diante ganhei um monte de amigos novos, e não só nessa escola, não só na minha primeira casa. E já fazem mais de 13 anos e sinto saudades de todos, sempre...
O homem sorriu aliviado. Entrou na nossa conversa quando eu perguntei pra Letícia o que ela queria ser, ela disse que não sabia, eu disse que na época que tinha a idade dela queria ser aeromoça e seu pai perguntou se ela sabia o que era, logo depois então explicando. Quando fomos embarcar, eu deixei a caixa de bis com ela, deixei meu telefone e e-mail pedindo para que ela fosse assistir Clássicos do Circo nos Parlapatões no domingo à tarde. E que se por acaso quisesse apenas escrever, conversar, que era só me ligar!
Letícia me puxou com seus bracinhos pra perto dela, me deu um abraço longo e apertado. Em seguida um beijo, depois outro beijo, bem barulhentos! E me disse "tchau Amanda... eu vou ver a peça tá!". E entramos no ônibus. Quando fomos desembarcar no Guarujá, seu pai ainda me olhou por uns instantes sem acreditar muito bem no que havia acontecido, mas com um olhar de agradecimento. Dei meu sorriso largo e sincero, peguei a rua em direção à praia e caminhei seis quilômetros para casa. A mala não pesava e a água não congelava meus pés. Tudo estava tão
lindo quanto aqueles olhos azuis esverdeados como o mar.
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