domingo, 29 de agosto de 2010

Sem resposta...

Cena clássica onde nos expomos e nada retorna. Cena típica mesmo, daquelas que terminam de forma bem patética... as palavras se esvaem, perdem o sentido, perdem o direito de terem existido, já que foram escritas e esquecidas. O que fazer com as palavras que se criaram para obter uma resposta e ao invés disto permanecem no limbo do que pode ter se perdido, pode ter sido ignorado, pode ter sido apagado, quem sabe apenas está ainda lá piscando, quem sabe?

E por que importa tanto? Quantas perguntas, quantas palavras, tudo acontecendo no mundo e sendo ligado a ele de novo... Outro dia disse que pararia de fumar cigarros para ajudar em meus estudos de canto, a Paula (amiga tipo irmã) diz: "que tal você começar a cumprir com o que diz?". Desde então não fumei nenhum cigarro, como tenho feito com as coisas as quais ando me propondo a fazer. Tudo, menos tentar deixar esta paixão platônica para trás, como tudo o que não anda funcionando em minha vida e que estou mudando gradativamente para que comece a funcionar... que tal?

Mas então ele chega, sempre com aquele ar cansado, calmo, feliz de alguma forma. Uma segurança, uma doçura. Mesmo quando não me cumprimenta, não diz tchau. E eu deixo tudo pra passar mais uma noite só batendo papo, só conhecendo-o e conversando, e trocando tanto sobre tantos assuntos que nem dá pra enumerar, só sei que sinto muito prazer sempre, todas as vezes. É loucura se apaixonar pelos gestos? Ou pela forma que o sorriso dele brota quando olha pra tela da câmera e do computador e vê algo incrível que captou?

Esses dias achei em Clarice mais um refúgio, numa frase brilhante. Estava decidida, estava realmente obstinada. Então passo o domingo entre filmes tristes e muitas lágrimas, uma caixa de chocolates (que AINDA não acabou, como o dia também não) e entre as perguntas que não se respondem sozinhas, com aquele sorriso e olhar compreensivo na cabeça, com a certeza de que estou brincando sozinha nesta play...

Engraçado, embora parar de fumar esteja sendo fichinha, parar de deseja-lo, nem tanto. Ainda sim, ai se não tivesse né! Melhor era tudo se acabar, já dizia o poeta!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Há momentos
Clarice Lispector

"(...) Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.(...)

(...) A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar
duram uma eternidade.
A vida não é de se brincar
porque um belo dia se morre."

Senti-me tão inspirada após o poema que tive que escrevê-lo e deixá-lo na porta da geladeira para que minha mãe leia ao acordar. Espero que o inspire tanto quanto a mim e que a faça querer viver tanto quanto eu quis.

Na bolsa, aquela trufa da minha doceria predileta, guardada há tempos no intuito de ser esquecida, pra ajudar a perder uns quilinhos. Achei propício saboreá-la pedaço por pedaço agora. Como disse, vontade de viver.

É bem verdade que poucas pessoas param para ler o que escrevo, e que não tenho nem de perto o olhar clínico e poético sobre a vida como esta brilhante autora, mas é verdade que um dia ela foi uma jovem mulher, confusa, com poucas palavras, estórias, observações, experiências. Daí ela se tornou Clarice Lispector.

O que quero dizer é que sonhar é do ser humano. Sonho porque me alimenta, me faz melhor. Espero que consiga inspirar alguém com o que compartilho, pois me sinto sempre muito inspirada por coisas que leio, inclusive de ilustres desconhecidos como eu.

Me alimentando de:

Mary&Max - animação incrível de chorar do início até o fim.
Julia&Julie - Juro que o próximo não é Sandy&Junior! rs.... Mas este filme é inspirador também. Histórias reais de pessoas que deram certo,adoro.
Adam - sobre um homem que tem a síndrome de Asperger e se apaixona por sua vizinha... clássica história, mas desenvolvida de forma bem realista neste filme. Gostei. Delicado, envolvente..
Criação - filme que mostra uma parte da vida do Darwin, em foco quando resolve publicar "A origem das espécies", muito próximo de quando sua filha mais velha morre. Além dos atores serem incríveis, uma direção impecável, fotografia deslumbrante, há uma visão tão humana sobre Darwin, algo que poucas pessoas param para questionar e como isso influenciou em suas pesquisas, seu modo de encarar a vida, os fatos. Enfim, mais uma forma de mostrar os caminhos tortuosos que certas vidas seguem para que outros bens ocorram... ciclos!

Está faltando filmes, mas escrevo uma outra hora mais!


sábado, 14 de agosto de 2010

Ciclos...

Quanto eu estava com 20 anos a minha vida deu um giro de 90° me deixando completamente sem chão... tanto que na época a solução mais lógica ao meu alcance era me endividar, comprar uma passagem de avião pra Madrid e ir viver ilegalmente com meu primo, que na época também estava ilegal, e recomeçar tudo do zero de um lugar completamente novo. Poxa... o que é recomeçar uma vida de 20 anos? Quanta pressa temos né!

Não precisei ir, arranjei outras soluções é claro. A vida acaba por te levar pros caminhos que ela está programada para levar. Acredito sim na capacidade individual de cada ser de conduzir seus caminhos aos lugares desejados. Mas nem sempre desejamos o que deve acontecer, não podemos esquecer que somos antes de tudo uma parte de uma roda que gira, que nunca parou. Enfim, a vida me deu o que eu quis, e me mostrou que pode tirar também.

Quando não cuidamos de algo alguém toma conta, leva, porque é assim, as coisas precisam funcionar mesmo que você não esteja se empenhando o bastante para que elas funcionem. Enfim. Parece que estou encerrando um ciclo. Longo ciclo. Mas precisava entender e recolher experiências fundamentais para o futuro. Bom, é assim que gosto de pensar. Sempre procurei entender o começo e o final das coisas em minha vida... nenhum acontecimento passa em vão, porque se não terei que passar por aquilo novamente e certamente não quero!

Então quando estava completamente sem chão nos meus 20 anos, sentei-me com uma pessoa incrível que dentre previsões certíssimas, descrição fiel de meu passado e algumas explicações dos acontecimentos caóticos dos últimos dias, ainda me disse "sabe porque toda esta força? Você não se abala com os ciclos. Entende seus inícios, lida bem com os finais. Não sofre, passa pra outra, muda de direção. Quando as coisas parecem fáceis, elas deixam de assustar certo?"

É bem verdade que tristeza e frustração são parte de quando sentimos que falhamos. Mas sob uma perspectiva mais abrangente, entendo que algo tinha que vir com este acontecimento... vou aproveitar o que puder, aprender e passar, porque novas coisas virão e só ficarão mais fáceis se eu já tiver resolvido as anteriores.

Bem, ciclo novo iniciando. Hora de entrar na arena pra vencer.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Pague meu dinheiro e vista sua roupa...

Ainda não tive coragem de cobrar, mas hoje, era exatamente isto que eu deveria ter feito. Cenário assustador, ambiente familiar. Foi tudo tão rápido. Acho que ambos tínhamos muita certeza sobre o porque de estarmos ali, quanto antes então melhor. O sexo em si não foi dos piores, o que me fez voltar pelo caminho sentindo asco daquele gosto e daquele cheiro não havia sido nada físico. O discurso "não quero pagar trezentos reais no ingresso e sentar ao lado de uma família de pessoas mais humildes" é que me deu tanto nojo que eu queria vomitar apenas.



Engraçado. Já estive com pessoas que pensavam diversas coisas, mas uma coisa como essas ser tão aparente assim, um discurso tão jovem petulante nariz enpinado arrogante sabe tudo psiquiatra insensível, técnico de máquinas humanas! O encontro de hoje teve proporções em minha vida muito maiores que eu poderia imaginar...



Pior isso... um técnico de máquinas humanas. Mais um. "Acho bonito como vocês das humanas gostam de militar! Levantar a bandeira!". Ah... quanta superficialidade sobre uma opinião isolada de um assunto isolado.



"Little boxes, making of tick tack. Little boxes,little boxes, littles boxes, all the same!"

Sempre tentanto colocar tudo em caixas, já me enquadrou naquela que tem ideais, que tem seu discurso e luta por ele e é hipócrita por outro lado... Poxa... que bom que já entendeu tudo isso nos quinze minutos que estamos conversando. Era pra eu sentir vergonha por pensar? Por me incomodar o bastante para não assistir o que não me sinto à vontade? Acho que na verdade o incômodo partiu por eu não pensar como ele e alguns bons porcento da sociedade. Me desculpe então!



Me senti tão pequena tendo dividido mesmo apenas que sexo, mesmo que só por necessidade física. Se a conversa tivesse sido antes eu não teria passado mais que alguns instantes e entendido que não valia a pena, porque antes uma boa foda com o dedo que uma indigestão pós sexo como esta.



Este ano está sendo um filha da puta de acontecimentos extremamente humanos. Se por um lado eu desencanei das aulas, por outro vivi intensamente os conceitos que tenho que levar para as matérias. Humano... vivendo intensamente e com encontros inesperadamente deliciosos.

Hoje sai realmente estarrecida pela minha pouca capacidade de julgamento quando o assunto é sexo, e minha necessidade dele. Se por um lado sai satisfeita, por outro sai frustrada, nervosa, enojada... e pior, fazendo como ele, colocando-o na gavetinha de ser insuportável sem dar ao menos outra chance. Mas quer saber? Somos movidos por nossos desejos e anseios, somos seres egoístas e é isso que nos faz sobreviver, não é?



Mas embora este encontro tenha sido aparentemente desastroso, foi um verdadeiro achado riquíssimo em aprendizado de diversos angulos. Quanto a cobrar, hoje quando peguei minhas coisas indignada e sai entendi definitivamente que minha liberdade é algo que dinheiro algum pode comprar. Sério, façam seus preços. Sou jovem, inconsequente e estúpida! Sou dona da minha arrogância. Vivo o agora. Ora, que honra afinal.

domingo, 8 de agosto de 2010

Olhos azuis


Não estava com pressa de quem está com horário marcado, estava com pressa de quem sente muitas saudades e quer logo chegar em casa, dormir na cama confortável, comer a comidinha que minha tia sempre fez com tanto carinho... Era este tipo de pressa. Mas estava até que bem tranquila, a fila era pequena. Na minha frente apenas um homem que falava muito ao celular enquanto uma menininha pedia desesperadamente por sua atenção.
Grandes olhos azuis esverdeados me olhavam de baixo pra cima. Estavam ainda maiores e mais esverdeados, aumentados pelas lágrimas peduradas e mais aquelas outras que vinham correndo empurrando estas umas. Ela sorriu ao olhar para mim, sorri de volta... um largo e sincero sorriso. Fomos para a mesma plataforma. A menininha se sentou com o seu pai de um lado, fui para outro distante. Comecei a tentar ler meu Hamlet. Comecei a perceber os movimentos desesperados que vinham da garotinha, que parecia querer mostrar com seus bracinhos curtos toda a tristeza e confusão de seus sentimentos, que suas palavras eram ainda insuficientes para expressar. Depois de discutir um pouco e então desistir, o pai da pequena sai para um lado deixando-a sozinha. Ela rende-se em chôro sentido, desesperado. Em meio a soluços, seu olhar perdido pede ajuda.

Levantei-me, peguei minha mala, fui em sua direção, sentei ao seu lado, puxei uma caixa de bis da mochila (como toda chocólatra nível máximo, sempre tenho um chocolate na bolsa) e ofereci a ela. A fofa deve ter se lembrado dos pais dizendo para nunca aceitar nada de estranhos, então com aquele mesmo sorriso largo eu disse "chocolate cura qualquer dor, vai por mim". E então ela também sorriu e pegou o chocolate. Seu nome é Letícia, vem bem de encontro às suas bochechas fofas e rosadas e seus olhos grandes e claros. Comecei a limpar suas lágrimas dizendo
que ali havia um rosto muito doce e lindo para tanta tristeza... ela começou a me contar com desespero que seus pais estavam se separando e seu pai não queria deixá-la com sua mãe em São Paulo, ela estava indo obrigada para o Guarujá. Dez anos apenas... no meio daquele furacão da separação e das coisas que não entendemos que vem junto com ela. Então comecei a lhe contar de quando meus pais se separaram e eu fui morar na Bahia com a minha mãe e seu novo marido. "Não era ruim?" ela me perguntou. "Bom, não é muito legal é verdade. Mas você acaba conhecendo mais gente, mais gente acaba entrando na sua vida e gostando de você, você acaba conhecendo outros lugares também. É divertido agora e mais pra frente vai acrescentar um bocado na sua vida". E ela deu um suspiro longo e aliviado, pegou outro chocolate e continuamos a conversar sobre sua vida, seus amigos, as coisas que gostava de fazer.
Seu pai chegou, achou estranho mas não interrompeu. Ficou olhando de longe, apenas se certificando que a menina estava bem. Mas eu não estava com cara de quem parecia que iria machucá-la. Ainda comendo bis com ela, desta vez estava contando de quando cheguei no meu primeiro dia de escola, olhei para uma menina de cabelo todo armado como o da Hermione, comecei a falar com ela empolgada que meu nome era Amanda, estava ali no meu primeiro dia e era também minha primeira escola na Bahia, porque eu estudava em São Paulo... e dali em diante ganhei um monte de amigos novos, e não só nessa escola, não só na minha primeira casa. E já fazem mais de 13 anos e sinto saudades de todos, sempre...
O homem sorriu aliviado. Entrou na nossa conversa quando eu perguntei pra Letícia o que ela queria ser, ela disse que não sabia, eu disse que na época que tinha a idade dela queria ser aeromoça e seu pai perguntou se ela sabia o que era, logo depois então explicando. Quando fomos embarcar, eu deixei a caixa de bis com ela, deixei meu telefone e e-mail pedindo para que ela fosse assistir Clássicos do Circo nos Parlapatões no domingo à tarde. E que se por acaso quisesse apenas escrever, conversar, que era só me ligar!
Letícia me puxou com seus bracinhos pra perto dela, me deu um abraço longo e apertado. Em seguida um beijo, depois outro beijo, bem barulhentos! E me disse "tchau Amanda... eu vou ver a peça tá!". E entramos no ônibus. Quando fomos desembarcar no Guarujá, seu pai ainda me olhou por uns instantes sem acreditar muito bem no que havia acontecido, mas com um olhar de agradecimento. Dei meu sorriso largo e sincero, peguei a rua em direção à praia e caminhei seis quilômetros para casa. A mala não pesava e a água não congelava meus pés. Tudo estava tão
lindo quanto aqueles olhos azuis esverdeados como o mar.